A menina que só sabia contar até dez – Por @lunnaguedes
Hoje, tenho o privilégio de receber aqui a querida Lunna Guedes!
Seja muito bem-vinda ao Retratos da Alma!!
Apreciem…
A menina que só sabia contar até dez

Ela tinha um pequeno punhado de anos em sua pele. As mãos pequenas alcançavam com dificuldade as mãos daquele homem para quem ela esticava o pescoço, para poder ver suas linhas cheias de curvas engraçadas que os adultos chamavam de rugas, mas que, para ela, eram apenas caminhos que mencionavam de forma oculta os passos daquele homem que muitos chamavam de velho. Mas ela chamava aquele homem “gigante”, que vivia a bordo de seus oitenta e poucos anos, de avô. Palavra simples que servia de identidade, às vezes, secreta para aquele homem – que vez ou outra era também o homem do bolso cheio de doces, das pernas compridas vestindo calças finas a dar passos pelas calçadas da cidade que, há tempos, conhecia-o com Bastião. Ele era também o homem antigo que ainda tirava o chapéu da cabeça para cumprimentar as madames com quem se encontrava pelos caminhos da cidade, que tinha sua história misturada à daquele homem simples, que acordava cedo para buscar o pão e o leite que já não vinham mais até a sua porta como antes; que engolia gema de ovo antes de beber o café preto e comer o pão com manteiga amarela; que sabia o nome dos vizinhos todos e gostava de prosear (jogar conversa fora) com os amigos na praça perto de casa…
Sua idade era um mistério para aquela menina. Ela não tinha dedos suficientes em sua mão para contá-la. Ela sempre parava no oito. Quase duas mãos inteiras. Era bastante para ela que precisava apenas de uma mão para contar os anos que lhe cabiam. Ela dizia para ele, com cara de esperta, mostrando-lhe os dedos: “eu tenho isso e você isso”. Tudo fica tão simples e fácil quando uma criança mostra os dedinhos e os dentes. O mundo inteiro parece ser feito de céu azul com bolas fofas de algodão…
Cabia àquele homem, que gostava de cigarro de palha, mostrar à neta a paisagem de uma vida inteira que ele tão bem conhecia, enquanto ela não. Tudo era incrivelmente mágico, encantador; “olha, vovô!”, dizia ela, apontando para algo inusitado no meio do caminho. Correr atrás de um pombo no meio da praça, jogar arroz para eles, vê-los voar pelos ares; equilibrar-se junto às mãos daquele homem que lhe dava asas, fazendo-a voar como se fosse também um pássaro. Tudo tão simples. Tudo tão importante. Ele era um gigante; ela, apenas uma pirralha de poucos centímetros, com pés e mãos pequeninos e seus punhados de anos bem fáceis de contar. Ele era o herói dos seus dias de menina…
No final do dia, ela se ajeitava no sofá, cabeça no colo dele e palavras que eram ouvidas enquanto os olhos resistiam. O mundo adormecia e lá ia o homem, com suas rugas e seu belo punhado de anos, levar a menina para a cama. Era lá que ela crescia, envelhecendo na velocidade do vôo de uma garça. Logo suas duas mãos não seriam mais suficientes para contar os anos e ele, o avô, voltaria à sua condição natural de velho, com rugas na face e lembranças fáceis de embalar. Então, se sentaria no sofá e se lembraria de uma menina que um dia fez dele novamente um menino, porque a idade do homem está no olhar de quem vê e na pele de quem viveu… Mas nunca em sua alma.
Um bom punhado de anos se passou…
E o cansaço inventou de visitar o corpo da menina que agora era uma bela mulher. Os dias já não eram mágicos e não havia nada de encantador. Ela se viu obrigada a deixar sua condição de profissional que tudo entende de lado para relaxar ombros, braços e pernas. Saiu sem destino. A caminhada a levou até o parque bem no meio da avenida e seus muitos movimentos humanos. Depois de um conjunto de passos bem largos, ela se abandonou junto àquele banco… Lá, ela encontrou-se com aquela menina a correr entre os pombos, com seus braçinhos bem abertos. Eles sempre voavam antes de serem alcançados. Tudo bem, porque ela não queria mesmo pegá-los. Então, surgiu aquele gigante diante da menina, com suas rugas e um punhado de anos que pedia duas inteiras mãos para contá-los. Tudo perdido. A mulher voltou a ser menina. Um sorriso percorreu seus lábios, fazendo-a abandonar seus conceitos, modismos e, por alguns minutos, ela foi feliz de novo, sem o peso de seus trinta e poucos anos…
De repente, lá estava aquela menina a espiar sua figura com olhos bem abertos. Surpresa, ela lança no ar um tímido “oi”, que é respondido imediatamente com um sorriso bem aberto, um olhar intenso e um ânimo sempre renovado. A menina desenha o contorno daquele rosto com as mãos. Não enxerga rugas – mas não entende aquelas expressões humanas. Curiosa, sorri, lançando no ar imediatamente a pergunta inevitável: “quantos anos você tem?” – e um segundo apenas se transforma em uma breve eternidade. Com um sorriso recém-inventado, a menina mulher mostra apenas três dedos de sua mão esquerda para a pequenina, que solta uma enorme gargalhada de satisfação: “eu tenho mais que você!” – diz ela, ao exibir seus quatro dedinhos: “como isso é possível?”. Sem o fardo de antes, a menina mulher se lança naquela aventura: “posso te contar um segredo?” e, com o aval da pequenina, ela se aproxima de seus ouvidos, confessando uma pequena ilusão que convence porque, quando se é criança, o que importa de fato é a soma natural de tudo que chega.
Quem sou eu?
Lunna Guedes nasceu em Gênova, na Itália num dia de novembro, em meio ao outono…
Mudou-se para São Paulo no meio de sua vida, num dia qualquer de agosto, disseram que era inverno, mas o asfalto quente e atmosfera seca lembravam o verão…
Um pouco mais adiante, bem provável que num dia de junho, tornou-se escritora. Não há lembranças acerca da estação, o calendário local dirá que era inverno, mas a alma exibia tempestades de janeiro, em pleno verão…
Ela diz que gosta do outono, de chuva no fim da tarde, de sol ameno pelas manhãs, de velas acesas e xícaras de chá, sofá na madrugada e tempestades que chegam sem avisar. Se diz meio bruxa, meio menina, meio moleca, meio velha, meio isso, meio aquilo e meio outras coisas também.
“Sou apenas metade e quando for inteira saberei que é meu fim”.
Ela alega não ter idade, nem noção. Irrealidade é seu sobrenome, paixão é sua condição…
Blog: Menina no Sótão
Twitter: @lunnaguedes
Facebook: Lu Guedes
















Lunna Guedes nasceu em Gênova, na Itália num dia de novembro, em meio ao outono…
Lu
Parabéns pela sua chegada aqui no Retratos da Alma, com um texto belíssimo.
Visitarei este recanto sempre que pousares aqui com tuas letras de asas.
Bjusss
Sil
Olá Lunna,
Ler teu texto me emocionou, pois me fez lembrar do tempo incrível que passei ao lado dos meus avós. Acho que quando temos a sorte de conviver com pessoas mais velhas, e que nos dão tanto de seu tempo e carinho, nunca perdemos a criança interior que existe em nós, talvez pelas boas lembranças do carinho recebido na infância.
Beijos, parabéns pelo lindo texto!
Inge
Lu, querida!
Que alegria recebê-la aqui no Retratos com um texto tão lindo e tocante… Mas, na verdade, de você eu não poderia esperar outra coisa, mesmo!
Suas linhas me trouxeram nostalgia, saudade e lembranças de tempos atrás… Alguns que eu realmente não gostaria de ter de volta, outros em direção aos quais eu iria agora mesmo se pudesse… Enfim, um misto de emoções e sensações!!
Adorei!
Às vezes, acho que somos mais felizes quando só sabemos contar até dez… Depois, fica tudo um pouco mais difícil e trabalhoso… mas é a vida!
Beijo carinhoso e volte sempre, a casa é sua!!
Lunna,
Teus textos, suas memórias, suas letras…tudo tão nostálgico, poético, profundo e bonito…é lindo.
Te ler, sempre me dá uma saudade imensa de pequenas coisas que só vivi dentro de mim. Obrigada por me lembrar…
Bem vinda ao Retratos!
Bjks no coração.
Adorei esse seu conto. Fiquei aqui suspirando. Quando crescer e conseguir contar até vinte quero ser como você. Ai, eu acho que tenho que aprender a contar até trinta, é isso?
beijocas
Querida Lunna,
Você sempre me emociona… A menina que não sabia contar até dez também não sabia contar rugas, por que o que realmente contava, era o amor.
Beijos, com imenso carinho
Madalena
Oi, Lunna.
Você me fez lembrar de meu avô, que guardava as goiabas da goiabeira de seu quintal para mim. Eu também não sabia contar até 10. Que lembrança linda você me fez ter.
Ibrigado, amiga.
Beijão
temos todos nós as nossas próprias e doces recordações. e quase sempre boas. nossos antepassados vivem em nós.
bjs,Lunna.
Mais um lindo texto da Lunna.
Uma excelente escolha da menina que tem uma alma gigante e dedos mágicos pra escrever tudo que encanta e trás mensagens positivas e reflexaõ pra semana toda.
Parabéns ao “Retratos da Alma”
Parabéns, fico imaginando o que você não estará escrevendo quanto completar 4 dedinhos
Muito lindo e terno!
Beijos e uma linda vida, com tantas alegrias, que não tenha dedos par contar.
Texto muito lindo!
A gente vai lendo e vislumbrando toda a paisagem descrita.
O que importa é a vida e não os anos.
Beijos!
Lunna querida!
Lindo o teu relato sobre o teu avô.
Eu tive pouco contato com o meu. Me lembro dele fazendo cocadas deliciosas. Doces lembramcas, doces momentos esses.
Novembro chegou, e vc já comecou a desenrolar o novelo, rs.
Feliz Aniversário! Como nao sei o dia certo, já estou comemorando desde o dia primeiro e vou continuar até o mês terminar, ahhahahaha.
Bjao