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Retratos da Alma
Tatiana Kielberman

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Duas décadas… – Por @heliabh

16 de maio de 1992, Viçosa, Minas Gerais. Fiquei parada por um tempo, olhando aquele rapazinho loiro de cabelos cacheados. Um menino ainda, mais ou menos da minha idade, que sorria para mim. Um pouco antes, por volta das dezesseis horas, eu havia caminhado para o alojamento masculino, um pouco indecisa. A festa que movimentava toda a cidade, a chamada “Marcha Nico Lopes”, deixava os jovens em estado de efervescência. A festa acontecia, basicamente, assim: durante todo o dia, os jovens faziam a “concentração” em todas as repúblicas e alojamentos de estudantes da cidade. Por concentração, leia-se: bebedeira o dia todo! À noite, todos se reuniam nas proximidades do barzinho do DCE, na Universidade Federal de Viçosa. Ali, organizava-se a marcha, tendo a cada ano um tema, uma situação a que os jovens faziam uma crítica política de forma irreverente, normalmente formando blocos.

Todos estavam eufóricos! Eu, porém, fiquei me lembrando da minha amiga Carlas, com quem havia combinado de passar toda a festa. Havíamos decidido sair nesse ano no Bloco dos Baianos – eu e minha eterna atração por meninos nordestinos – e seria a primeira vez que eu faria isso, participar de um bloco. Sempre preferi ficar pipocando mesmo, com minha camiseta e meu shortinho básico, dançando no meio do povo. Dessa vez havia mudado de ideia e ia sair num dos blocos mais animados. Mas, sem muita explicação, minha amiga havia resolvido cortar relações comigo, bem às vésperas da festa. Assim, acabei decidindo por aceitar um convite do meu amigo Sérgio e desisti de sair no bloco. Fui pra concentração em um dos apartamentos do alojamento masculino. É claro que havia um motivo especial para isso. Nas aulas de Português instrumental eu fiz amizade com vários meninos da Engenharia Civil e eles haviam me apresentado um colega deles, também calouro da Civil, o Robson. Imediatamente, ele se interessou por mim, eu o achei engraçadinho e começamos uma paquerinha. O Robson morava no apartamento do Sérgio e já havia me convidado para ficar lá na concentração. Diante do afastamento da minha amiga, do convite do Sérgio e do Robson e do meu interesse no calouro, não teve como deixar de ir para a festa no apartamento deles.

Assim que entrei no apartamento, fiquei por um tempo parada na porta. Meus olhos se dirigiram para a janela da sala, onde estavam dois rapazes, de costas para mim. Um deles, loirinho, de cabelos um pouco cacheados, olhou para trás e cruzou os olhos com os meus. Ele me lançou um sorriso e eu sorri para ele também, sem me mover. Até que o meu paquerinha, o calouro, me encontrou e saiu me arrastando. Robson me levou para o quarto onde haviam colocado a aparelhagem de som. Ele estava, justamente, cuidando do som, que haviam colocado próximo à uma janela. Ali, enquanto escolhia as músicas que iam animar o ambiente, ele me beijava e abraçava. Eu me senti a namorada do Dj! Em frente à janela, do outro lado do quarto, havia um beliche. Sentei-me na cama de baixo. Robson ficava o tempo todo bebendo – bebia muito! – e indo de lá pra cá: vinha até mim, me beijava, voltava a cuidar do som; vinha perto de mim de novo, voltava pro som. No início estava divertido, mas depois foi ficando meio sem graça passar tanto tempo ali sentada sozinha esperando os momentos em que o calouro podia deixar o som e ficar um pouco comigo.

Foi em um desses momentos de tédio que senti a cama de cima do beliche balançando! Percebi que era alguém que, sentado na cama, ficava dançando todo empolgado. Parecia que ia cair bem em cima da minha cabeça! Sentada onde estava, eu chutei os pés da pessoa, que eu nem sabia quem era, para ver se ele ou ela se tocava e parava de dançar e pular na cama acima da minha cabeça. Chutei os pés duas, três vezes… Até que, na terceira vez, ele se abaixou, olhou pra mim e sorriu. Era o tal loirinho que eu havia visto logo que cheguei ao apartamento! Por algum motivo incrivelmente misterioso, ele gostou de mim… E passou o resto do tempo andando atrás de mim na festa, me roubando beijos, tentando de todo jeito me conquistar! Eu resistia bravamente – embora não tenha conseguido resistir a alguns beijos muito bons! – porque já estava acompanhada. Mas o Robson ficava a cada momento mais bêbado e passou a ter umas atitudes com as quais eu não concordava muito. E eu já pensava, seriamente, em parar de resistir. Porque, afinal, ninguém deveria nunca fugir da felicidade…

16 de maio de 2012, Belo Horizonte, Minas Gerais. Fiquei parada por um tempo olhando, sobre a mesa, as lindas flores que eu havia recebido no meu trabalho no meio da tarde, com um cartão que dizia “Sempre vou te amar”. Ao lado delas, um par de sapatos lindos, exatamente os sapatos que eu havia namorado na vitrine de uma loja do shopping há alguns dias. E próximo à janela, aquele mesmo rapaz, agora não tão menino, com seus cabelos – mais grisalhos do que loiros – não mais cacheados, sorriu para mim. Aquele mesmo sorriso, como se dissesse que havia esperado por mim a vida toda. E eu sorri também, enquanto pensava por que motivo incrivelmente misterioso aquele homem me amava, de uma forma tão sincera, há exatamente vinte anos! E pensei que, afinal, não há felicidade maior do que se sentir realmente, verdadeiramente e intensamente amada por alguém!

“Entre as coisas mais lindas que eu conheci, só reconheci suas cores belas quando eu te vi…
Entre as coisas bem-vindas que já recebi, eu reconheci minhas cores nela então eu me vi…

Está em cima com o céu e o luar… Hora dos dias, semanas, meses, anos, décadas, e séculos, milênios que vão passar! (…) E as coisas lindas são mais lindas quando você está… Onde você está…
Hoje você está nas coisas tão mais lindas… Porque você está… Onde você está…
Hoje você está nas coisas tão mais lindas!”

(Nando Reis – As coisas tão mais lindas)

6 Respostas to “Duas décadas… – Por @heliabh”

  • Buscando umas palavras para comentar, mas você me deixou sem ela Helinha.

    Me emocionei muito mesmo, lindo demais.

    Que Deus abençoe.

    Beijo com pão de queijo e uma linda vida, repleta de amor!

  • Tatiana Kielberman disse:

    Minha querida Helinha,

    Que história apaixonante!

    Adorei saber de coisas que eu gostaria de já ter te perguntado, mas nunca tive coragem ou oportunidade… hehehe!

    Muito lindo saber e sentir que duas pessoas podem estar juntas por duradouros vinte anos, com respeito, afeto, carinho, cumplicidade, tolerância e amor… Raríssimo de se ver e, portanto, deve ser preservado!!

    Parabéns a vocês e que essa união seja consagrada pelo resto dos dias… ^^

    Obrigada por compartilhar tudo isso aqui no Retratos… Sinto-me honrada!

    Um beijo de quem ama e torce por você sempre!

  • Eunice disse:

    Amiga querida. Sua historia de amor e linda, a familia que vc criou tambem. Pois e, em maio de 1992 eu ja estava em Sao Paulo, senao provavelmente teria sido testemunha ocular desse inicio de namoro, rsrsrsrs.

    Parabens pelos 20 anos de relacionamento!
    Que o amor de voces continue lindo, sempre!

  • Kátia disse:

    Que lindo, maninha!!!
    Parabéns a vocês!!

    Nossa, já tem tanto tempo assim????

    Ah, por esssas coisas da vida é que a mamãe diz: Há males que vêm pra bem… Se não fosse a tal da Carlas (faz tanto tempo que você até esqueceu do S no final… rsrrs) pirar o cabeção nada disso teria acontecido…

    Bjokas,

  • Tatiana Kielberman disse:

    Perdão, Katia! O erro foi meu, rsrs… A Helinha mandou o texto e eu achei que ela havia se enganado quanto ao S no final do nome. Já corrigi!

    Hehehe… Coisas de quem não aguenta ficar sem editar, mesmo quando não há correções a serem feitas!

    Beijos e desculpe, Helinha!

  • Karina Boccia disse:

    Puxa Puxa Que Puxa!
    Será que vou ter um casamento assim?
    Isso é mais lindo do que contos de fadas e princesas Disney, sua história de amor é bem mais bonita, romântica e o melhor de tudo…é Real!

    PS: Seu filho também é loiro? rsrs
    Que esse amor dure muitas e muitas décadas!
    Beijokas, mineirinha linda!

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