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Retratos da Alma
Tatiana Kielberman

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Digna! – Por @AnimandoC

Acabara de desligar o telefone dizendo as palavras: “sei que sou digna de ser amada por alguém especial, não queira depreciar as pessoas que me amam”.

Imediatamente uma pergunta ressoou no fundo de sua mente: “será mesmo que ainda sou digna disso?”

Sacudiu a cabeça espantando o pensamento, subiu com cuidado nos degraus da escada para buscar, em meio a tantos papéis no armário, um saco plástico no qual lia-se “Rabiscos em pedaços de papel”. Ali guardava há anos vários textos escritos em diferentes momentos. Precisava mandar algo para sua coluna que sairia no dia seguinte, mas sentia-se impossibilitada de escrever qualquer coisa.

Queria achar um texto específico. Um trecho que havia incluído num livro escrito em 2002, nunca publicado senão na internet, mas atualmente restando apenas uma versão impressa numa pasta que estava… onde mesmo?

Abriu a primeira pasta. Não achou o que buscava, mas saltou-lhe aos olhos um cartão em forma de coração, com os dizeres: “Docinho, eu te amo”. Fechou os olhos. Achou-se digna daquele amor. Lembrou-se digna e, assim, reconheceu-se digna.

Foi abrindo todas as outras pastas. Não achava seus manuscritos, mas em cada uma delas encontrava cartas, cartões, bilhetes. Palavras de amor que ainda hoje sooam verdadeiras. Porque de fato foram. E talvez ainda sejam. Diferentes grafias, diferentes lembranças, porém emergindo um mesmo sentimento: “digna!

Não encontrou o que queria, mas talvez tenha encontrado o que precisava.

Fechou o armário, olhou pela janela tentando enxergar na rua o que sabia que não enxergaria.

Teimosa, subiu novamente as escadas: precisava mandar o texto!

Abriu o armário e lá estavam seus preciosos rabiscos: numa pasta que não tinha enxergado antes – nem sabe como, já que era a primeira de todas, a mais fácil de alcançar.

Achou o texto que queria, mas ele já nem fazia mais sentido. Limitou-se a copiar a primeira e última frases:

“Era uma vez uma menina que um dia foi expulsa do conto de fadas.

[...]

Não quero mais conversar sobre coisas sérias, não quero mais tomar decisões, nem resolver problemas.
Mas é preciso.

Quero dormir o dia todo, chorar por qualquer coisa e brigar com quem quiser.
Quero dizer o que eu penso.
Quero exigir o que eu quero.

Mas não se pode fazer nada disso.”

Sentou-se e escreveu um novo texto.

Olhos marejaram, mas não chorou. Não há motivos para chorar. O amor é lindo demais… na história e nos presentes do presente.

Agradeceu por isso e sorriu.

8 Respostas to “Digna! – Por @AnimandoC”

  • rita schultz disse:

    A única maneira de vivenciar o Amor é amar.
    Bjs.

  • Geraldo disse:

    Olá Ana,

    Creio que teu texto fez-me revirar o baú de minha mente quando há 20 anos tive as mesmas perguntas.. e as respostas não tardaram a chegar…

    Belo e inspirado texto.. como sempre…

    Abraço

  • Ana, seu texto é lindo… sempre gostei de textos que mostrem o cotidiano de quem escreve. Ainda que romanceado, é possível ver passo a passo o processo que levou à escrita dele. Você é e sempre foi sensível e digna de viver esse amor de que fala. Seu exemplo diário, inclusive no amor pela Amanda, provam isso de forma irrefutável. Lindo lindo. Beijo.

  • A S disse:

    Há tantas perguntas ainda a serem respondidas… A essa tua eu respondo: “Dignis digna eveniunt”

  • Tatiana Kielberman disse:

    Ana, querida…

    Você sempre nos surpreende com textos maravilhosos e encantadores! É uma honra te ler, de coração!!

    Mais do que digna, você é merecedora de cada centelha de amor que recebe… E, muitas vezes, a mente transforma em palavras escritas aquilo que a intuição e as emoções precisam demais gritar…

    Singelo e doce!!!

    Um beijo enorme, linda!

  • Maravilhoso Ana, sinto falta de textos como esse, que revelam muito do processo de escrita e mais ainda do escritor.

    Você é digna de tudo que foi e será.

    Parabéns e uma ótima noite!

    Beijo

  • Lindo, Ana. Textos assim são os mais profundos, mais humanos…os mais lindos.

  • Rosamaria Roma disse:

    Mesmo que a vida, nos decepcione, acredito que todos nós somos dignos de amar.

    Belos versos.

    Beijos

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